TEXTO DE APRESENTAÇÃO DA MOSTRA

MOLECAGEM PARA OLHOS CANSADOS,
JUVENTUDE EM IMAGEM E TRÊS IMPULSOS
Felipe Bragança

“Quem espera por sapatos de defunto, morre descalço. “ – J. C. Monteiro

JOVENS, LOUCOS EREBELDES é sobre a sobrevivência ativa do cinema ultrapassando e se firmando em gêneros e subgêneros para alcançar o novo e o risco que o mantém vivo.
O interesse surge para além de uma coletânea de filmes onde personagens jovens ultrapassem peripécias, mas uma mirada sobre o lugar mesmo da juventude, da iconografia da juventude na realização cinematográfica, sua invenção como estilo e  comportamento, e suas possibilidades atuais de atualização política e estética da imagem.
Tomando o sentido de juventude a partir de três impulsos básicos que regem esse universo de representação: a RIAVA, a MELANCOLIA e a ALEGRIA, proponho um ciclo de cinema composto em três vertentes que, ainda que pareçam por vezes se misturar dentro de um mesmo filme, alcançam esses impulsos como eixos centrais e os colocam como força motriz e principal efeito da realização cinematográfica: JUVENTUDE VERMELHA, JUVENTUDE AZUL, JUVENTUDE DOURADA (que tem seus conceitos explicitado sem textos internos ao catálogo).
O convite aqui é para a apreciação dessa cinematografia que mistura alguns clássicos do cinema hollywoodiano de grandes estúdios(Juventude Transviada, Amor Sublime Amor), filmes populares dos ano 80 (Curtindo a Vida Adoidado, Gatinhas e Gatões,entre outros) e trabalhos contemporâneos que seguem em novos territórios para esse universo pictórico e dramatúrgico a partir de meados dos anos 90 (Murmúrios da Juventude, Paranoid Park).
Mais do que pensar filmes sobre jovens, ou filmes com jovens, interessa valorar aqui o sentido da juventude como ato essencial para a formação da linguagem cinematográfica moderna e contemporânea, entendendo-a não como um ato de passagem, uma doença a ser curada com a maturidade, mas um sentido em si mesmo de ausência de nostalgia, ignorância daquilo que já está posto, de enfrentamento do que se diz ordenado e, em ultima instância de uma encantada coragem-crítica.
Curioso mas não inocente é notar que esses sinais de proposição da imaturidade diante da realização de imagens talvez sejam também o que poderíamos tentar encontrar de mais valoroso naquilo que há ainda de ARTE na realização cinematográfica e audiovisual hoje, em um momento em que o fazer artesanal de imagens não é mais um desafio técnico absoluto e a noção de perfeição não é mais um gesto humano de criação mas de maquinal reprodução. O sentido de juventude e de arte se misturam aqui, então e nos possibilitam ver a juventude como manancial estético que reúne:
A capacidade inerente se desafiar o instante, seja para destruir e se desviar, seja para negar e desertar do gesto  lugar-comum, seja para debochar e se alegrar como processo de criação alternativa de mundo.
VERMELHA, AZUL e DOURADA são recortes em cores que me ajudam a re-afirmar que em última instância estamos aqui preocupados com a superficialidade desses filmes, com sua capacidade imagética de afeto e efeito na memória da representação, e não em temáticas sociais e antropológicas ocasionais.
Certamente, num ciclo de filmes cuja proposta sempre foi a de apontar para um caminho de recorte curatorial assumido como discurso, esta lista de filmes  apresentados é apenas uma de outras possíveis, mas tenho certeza de que se trata de um conjunto de imagens unicamente reunido e com algumas raridades,onde a proposta é, acima de tudo, uma revitalização do sentido de intervenção da linguagem cinematográfica/poética/afetiva JUVENIL diante da identidade corrente de uma certa apatia re-ativa do audiovisual (em especial o brasileiro,mas também uma certa tendência do cinema de arte no mundo hoje) diante do oceano de imagens reproduzidas e produzidas diariamente. Uma apatia que alguns chamam de real e outros de contemplação mas que me parece esgarçada na última década (os flogs, blogs juvenis já nos trazem um lugar novo de criação e construção das formas de vida atuais) e sedenta de um pouco mais de calor,de pulso e de sangue nas veias.
POR FIM: Perceber então a juventude como valor político e identitário para alem de retratos geracionais nostálgicos e filmes-brechó, mas como um dos caminhos possíveis de sobrevida e discurso para este gracioso delírio do Século XX que foi (é!) o cinema e que, como sabemos, com 100 e poucos anos de vida, próximo a outras formas de arte…é só um moleque.

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Os filmes estão divididos nos três ciclos,cada ciclo com uma semana de apresentações, com uma quarta semana onde alguns destaques e cópias mais raras serão repetidas misturando as três cores dessa bandeira.
Recomendo a leitura de cada um dos três textos dos ciclos para um mergulho direto aos impulsos mapeados/costurados/esmiuçadinhos aqui. É uma esforçosa e esforçada tentativa de contribuição à vitalidade dos olhos.

Bons filmes. E boas combinações entre filmes.

Novembro,2008

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Felipe Bragança, 27, é cineasta, colaborador constante de Karim Ainouz e diretor de quatro curta-metragens. Entre alguns projetos ligados ao cinema juvenil contemporâneo, desenvolve hoje (ao lado de Marina Meliande) seu primeiro longa-metragem em 35mm, A ALEGRIA, a partir de um mergulho no universo adolescente brasileiro.

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